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Mostrando postagens de Setembro, 2011

Preciso, Para...

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"Este mar azul esconde em suas ondas a imensidão que tanto busco e afoga a dor que tanto me maltrata". Kauana Costa

Preciso que um barco atravesse o mar lá longe para sair dessa cadeira para esquecer esse computador e ter olhos de sal boca de peixe e o vento frio batendo nas escamas.
Preciso que uma proa atravesse a carne cá dentro para andar sobre as águas deitar nas ilhas e olhar de longe esse prédio essa sala essa mulher sentada diante do computador que bebe a branca luz eletrônica e pensa no mar. 
Marina Colasanti

Espelho Melancólico

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O que está aqui dentro é possível que tu adivinhes. É possível que até acertes... Mas erres de melancolia.
De vencida já fui da vida. Outro baque e sou apenas eu diante do espelho.
Kauana Costa

As parábolas

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Imagine uma árvore carregada de frutos. Pense numa mangueira. Há quatro tipos de frutos: os bem pequeninos que estão no chão e nunca serão uma manga, os verdes, os de vez – quase maduros – e os maduros prontos para serem colhidos...
As pessoas são como essas mangas. Tem algumas que nunca irão produzir nada, essas também não são nem um pouco receptivas e nem solidárias, são secas. Amarguradas.
Há aquelas que não amadureceram e nem irão amadurecer, que não irão aprender a ser gente e nem a ser bicho. São apáticas, frias, inexatas.
Mas também há aquelas que são meio-termo. Nem são maduras nem imaturas. São de vez... Um dia podem amadurecer, ou não, mas nunca serão amargas, podem chegar a ser azedas, mas dificilmente serão más.
E as maduras...
Essas pessoas já nasceram eleitas. São aquelas que você colhe e que te acolhe apenas estendendo a mão. Elas são doces, amáveis, amigas...
Elas não te abandonam, pois elas guardam dentro de si a doçura, o sabor e o saber que amar é simplesmente amar…

O Jardim...

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- Acompanha-me? 
Perguntava uma vozinha vinda do alto.
Pensava, devo estar ouvindo coisas, estou sozinha nesse jardim...
E a voz mais alto insistia:
- Acompanha-me?
Olhava ao redor intrigada, será que ouvia vozes? Não... Certamente deveriam ser crianças correndo pelos arrabaldes.
- Acompanha-me?
Irritou-se, de onde viria aquela voz - agora sabia que não era de criança, mas de um homem. Estaria sendo assediada? Apavorava-se ao pensar nessas coisas... Estava sozinha no jardim, ela e o balanço.

- Acompanha-me? Teu medo não me assusta... Eu também não te assustarias se para mim você olhasse.

Não sentia medo, não mais...
E tentava atinar de onde viria aquele som tão suave.
Olhou a sua esquerda e nada viu, olhou a sua direita e também nada viu. Poderia olhar para o chão, mas o que veria além de seus pés?
Viria de cima?
- Olha...

A voz lhe convidava.
Olhou e reconheceu na figura que viu a pessoa que procurava a vida toda.

- Acompanha-me?

Seus olhos brilhavam com um brilho diferente. Não rec…

Se eu pudesse sumir...

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"Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?"
Manuel Bandeira
Há muitas coisas que nocauteiam uma pessoa, têm os socos que derrubam a pessoa fisicamente, mas há socos que ferem a alma e quando isso acontece... demora... demora muito tempo para voltar tudo ao normal...


KC

Aviso da lua que menstrua

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Cantares do Sem Nome e de Partidas

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I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.


Hilda Hilst

Cantares de Perda e Predileção

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LXVII

Vida da minha alma:

Um dia nossas sombras
Serão lagos, águas
Beirando antiqüíssimos telhados.
De argila e luz
Fosforescentes, magos,
Um tempo no depois
Seremos um só corpo adolescente.
Eu estarei em ti
Transfixiada. Em mim
Teu corpo. Duas almas
Nômades, perenes
Texturadas de mútua sedução.


Hilda Hilst